Ano XIV
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  • Gasolim e as prioridades




    Defensores acérrimos

    Este post era para ser sobre o Ötzi.
    Também tinha a ver com defensores acérrimos.
    A verdade é que já pouca coisa me espanta e pouca me faz virar a cabeça. Deve ser da velhice e da burrice.
    Mas de cada vez que vem à baila um assunto mais polémico, a chusma de defensores acérrimos disto e daquilo sai à praça.
    A moda (leia-se canção) é sempre a mesma, atacam com certezas absolutas que normalmente se verifica negarem-se a si próprias.
    O wishful thinking em estado puro.
    Não sei se existem argumentos vencedores. Provavelmente não.
    O mistério é que os defensores acérrimos são necessários. Se não fossem, não existiam.
    Fazem falta como contrabalanço. De um e de outro lado.
    Também não sou daqueles que considera que no meio é que está a virtude. Ela simplesmente não está em lado nenhum.
    Mas reparem que, a julgar pelo pouco que se sabe, as relações sociais dependem sempre da força. Mais do que da razão, que é ela própria também um mistério.
    A força (outros diriam energia) é, tal como sancionou a velha mulher naquela taberna da serra, a que tudo pode. Apresenta-se de formas diversas, mas no fim ganha sempre.
    E não será ela que gere os defensores acérrimos, os incréus, os crentes, os cépticos e os apáticos?



    Tardes assim





    Longe de saber

    Tão longe de saber.
    Um dia ainda explicarei porque é que o post anterior revela uma história ainda mais estranha...



    Os mapas de outrora



    O assunto era sério.
    Eu e o Dr. M. debruçávamo-nos sobre os mapas e confrontávamo-los com descrições da época.
    Pedíamos novos mapas e identificávamos as discordâncias entre uns e outros.
    Havia um que tinha uma mancha que tornava ilegível a linha que estudávamos.
    Outros, pequenos rasgões.
    Mas aquele não. Era uma espécie de crosta.
    Pedimos testes.
    Queríamos saber se algum daqueles mapas fora corrigido em época posterior.
    Quando o resultado dos testes chegou, a surpresa.
    Em vez de nos dizerem se havia alterações posteriores ou não, apenas uma certeza:
    A crosta era um resíduo de açorda.

    Dias depois, encontrei o meu velho amigo e disse-lhe:
    "Não imaginas o cabrão dum sonho que tive uma noite destas. Então não estava a meias com o teu pai a analisar uns mapas antigos e umas confrontações que queríamos confirmar! Um deles até tinha um bocado de açorda seca agarrado!"
    Ele olhou para mim, arqueou uma sobrancelha e, depois de uma pausa longa, disparou:
    "Uns mapas? Isso é muito curioso!"
    "...?"
    "É que eu e o meu pai temos justamente andado a ver umas cartas e uns cadastros antigos por causa de uma alteração de sesmo! Mas assim de açordas não falámos nada."
    Como ele é um tira-partido nato, eu não sei se acredite.
    Ao pai dele vejo-o pouco. Não tenho confiança suficiente para lhe perguntar pelas investigações.

    extracto de mapa encontrado aqui



    Gasolim, o palco e a escadaria





    Os prémios pesquisa: O Murro de Berlinda

    De vez em quando, é inevitável.
    Tem que se voltar a premiar os que aqui caem inocentemente, à semelhança de outros colegas blogueiros.
    Ora aqui vai uma lista de notáveis pesquisas à atenção dos leitores:

    Os que interrogam:

    Porque existe diferença de alqueires?
    deep blue "o que é "
    Quem foi Mercali
    QUEM FOI MERCALI


    Os que procuram manual de instruções:

    curva de nivel como fazer
    como fazer barba postiça
    como meter anuncio para vender automovel
    como prever totoloto
    estruturas metalicas. como construir, calcular


    Os intrigantes:

    corrigir sotaque portugues
    h de homem
    filme Disney de inundação
    rapaz de olhos azul en braganca
    dia das bruxas poemas
    taberna dos tempos fotos
    funciona "são cipriano"
    Não Bata a Cabeça à Toa
    fotos roubadas mulher pelada
    palavras finlandesas
    calendarios tios
    mapa de carreteras, olhos
    tantonios
    imagem entremeada
    simpatias para te procurar
    mount ver Pinhal
    manobra intelectual


    Os que sabem muito bem o que querem:

    las meninas "a triangle" -similar -triangles
    porta cartao couro brindes
    mapas de albufeira com escalas
    ilhas urbanas de calor em vila velha
    comboio de ermidas para albufeira
    acidentes rodoviários (alto Alentejo)
    acidentes rodoviarios no alto alentejo
    pintura de troncos de árvores urbanas
    A geometria no presepio
    Peugeot algarismos
    ana fotos "viana do bolo "
    nomes de restaurantes no cais de gaia
    Imagens de sandes
    foto de modelos vestidas entre 14 e 16 anos
    papéis de parede com mulheres nuas em carros
    simpatias* pagar as coisas que promete
    setubalenses nuas
    Papéis de parede com paisagens de Portugal
    fotos do gipsy kings hoje
    animais em via de extinção o burro
    Retrato da adega cooperativa de Chaves
    "base para copo"
    imagens de acidentes bizarros
    vestuario arabe.com
    compro citroen 2 cavalos
    turbante cabeça evolução
    esquemas electronicos de sirenes


    E o mais melhor bom de todos:

    murro de Berlinda

    (deve ser o nome de uma peça de teatro ou de um livro, sei lá)

    (ou então é teste, para ver se é original...)



    Não resisto ao bolo folhado

    Quantas vezes será necessário ouvir uma frase a um dos nossos antepassados para que ela nos fique na memória?
    A resposta é evidentemente imprecisa. A cada qual a sua.
    Mas serve esta frase, tantas vezes ouvida a um dos meus avós, quer na primeira pessoa quando se ria de si próprio, quer na terceira quando falava em geral das fraquezas do espírito e do corpo, para acentuar a minha impotência face à vontade de comentar isto e aquilo.
    E o que me apetece comentar hoje é a nossa (a minha evidentemente e a dos outros) absurda necessidade de racionalizar a política.
    Parece ser próprio do homem usar o que designou de razão para desenvolver técnicas primeiro e ciência depois.
    Já se sabe que da ciência pode nascer mais técnica ou não.
    Mas pelo que se sabe também, ou parece saber-se, primeiro apuraram-se técnicas e depois fez-se ciência. Pode sempre argumentar-se que na base da técnica há sempre ciência. Ciência tout court. Galinha e ovo.
    Voltemos.
    Uma das necessidades da vida de hoje é a de opinar sobre os factos, sobre as decisões, sobre a qualidade delas e de quem as toma.
    E inevitavelmente, racionalizamos as coisas.
    Sucede que a política nada tem de racional. E quando tem, quando aspira a ter, mostra a história que os resultados são catastróficos.
    Algumas correntes de pensamento falam hoje de uma substituição do racionalismo positivista por uma escola do consenso.
    O racionalismo seja onde fôr que lhe encontremos as bases, serviu e servirá, assim o julgo, para que desenvolvamos as ciências e as técnicas.
    Já é pouco provável que se aplique na política. Onde é que está hoje o pensamento político estruturado e dito científico? Não se tratou de mais um equívoco histórico?
    Uma das frases que mais me aborrece ouvir é esta: "Já não se pensa assim!"
    Então pensa-se como? O pensamento terá modas? Confundimos o pensamento com as teorias demonstradamente erradas?
    Será porque "já não se pensa assim", que os grandes da antiguidade se tornaram menos certeiros? Mesmo que, aqui ou ali, tenham engalinhado com certas questões e à volta delas opinado erradamente?
    Alguns verão quantos erros cometemos na apreciação das coisas na nossa época.
    A questão não é, nem nunca pode ser, a de pensar.
    É e continuará a ser as ferramentas que se utilizam e os erros que se cometem.
    Se já ninguém usa um ZX Spectrum para programar em Basic, isso não significa que se tenha deixado de programar.
    E se uma máquina falha a chegada a Marte, isso também não faz com que a exploração não avance.
    Desculpem-me o desabafo, mas tal como o meu avô, não resisto ao bolo folhado.



    Gasolim com comboios





    Carnaval

    Se não fosse um comentário feito há pouco por um amigo, ainda não seria hoje que me dava conta de que o carnaval está à porta.
    O que faz jus ao post de há uns tempos em que dava nota do meu habitual alheamento às festas móveis.
    Mas também reflecte essa ausência nos blogues que leio.
    Nos jornais que consulto, nos noticiários que vejo e ouço.
    Já se sabia que a moral da Pátria estava em baixo.
    Nem o carnaval a levanta?



    imagem de www.matercarnaval2001.hpg.com.br/ (link perdido)



    Os carros americanos



    Não sei porquê. Mas era assim.
    Nos meus tempos de miúdo, existiam lá para as minhas bandas inúmeros carros americanos. Suponho que o mesmo acontecia noutras zonas.
    Eram os Hudson, os Buick, os de Soto, os Cadillac, os Chevrolet, os Studebaker, por aí fora. As marcas da GM, da Chrysler, da Ford e de outros fabricantes mais pequenos.
    Seria provavelmente a guerra ainda recente que fazia com que os carros europeus não esmagassem a concorrência de além-mar. Não sei.
    O certo é que os grandes espadas figuravam em quase todas as garagens. Pretos, castanhos, verdes e azuis escuros, cinzentos, lá estavam eles cheios de cromados, às vezes de pneu com faixa branca (calçados da mão).
    E eclipsaram-se sem terem deixado sucessores à altura.

    imagem em



    A embaixada do Anarcka



    Acontece com os livros. Às vezes ficamos tristes quando acabam.
    Acontece com os autores. Se já conhecemos toda a obra, gostaríamos de ter mais.
    Acontece aqui.
    Quando apreciamos a escrita de alguém, queremos mais.
    Mesmo que as pessoas estejam menos viradas para isto do que nós.
    Nunca conheci o homem, só lhe conheço a escrita.
    Foi por um acaso que ele aqui chegou há uns meses atrás, creio eu.
    E, como não havia comentários, mandou um e-mail.
    Fui ler o que escrevia. Gostei.
    Depois, trocámos algumas private jokes aqui em público.
    Há uns tempos o homem abrandou o ritmo. Quase não publica.
    Enviou-me entretanto esta foto que ele supôs, e bem, me agradaria.
    E porque hoje voltou a deixar um post, achei que era a altura certa para abrir aqui esta embaixada.

    Foto de Anarcka



    Dias de Terra Sigillata



    Atravessava-se a ponte já de café bebido.
    Era olhando a ribeira que se abria o maço de Definitivos.
    O outro com a alcofa na mão.
    Lá subíamos a calçada e nos íamos pendurar no talude, depois de afastar as piteiras e o mato mais rasteiro.
    O sol do outro lado, manhã quente. Se não fosse a face umbria do cêrro, a coisa não se fazia em verões assim.
    De sachola, escova, trapo, lá estávamos. Pó em barda. Vez em quando, umas pedras a rolar debaixo das solas, davam-nos o exacto valor do risco.
    Mas a ponta de uma ânfora tudo acalmava.
    Não fosse sabermos que se a não conseguíssemos extrair nesse dia, a manhã seguinte mostrar-nos-ia os cacos que dela restariam.
    A terra sigillata ainda escapava ao vandalismo. Era perfeita demais para ser antiga.
    É que não era possível que não andássemos às moedas. E de ouro.

    imagem em



    Se acontecer o pior

    Estarei aqui



    Ainda os elementos
    Seis meses depois

    Hoje é o dia dos seis meses aqui.
    Amainava então ligeiramente a fúria do calor.
    O país ardia como um pau de fósforo.
    Já se ouviam as habituais vozes e os habituais disparates.
    No meio dos comentários, um ou outro com visão larga. Mas nenhum desses mereceu a atenção devida. Só os disparates se propagam como o fogo, já sabemos.
    Os poucos que chamaram a atenção para a invulgar sequência de dias muito quentes foram ridicularizados.
    Os poucos que chamaram a atenção para o facto do fogo ter ultrapassado facilmente auto-estradas e ribeiras eram submergidos pela exigência de aceiros e de outras prevenções.
    Os poucos que falaram inicialmente na pouca preparação dos corpos de bombeiros urbanos para a tarefa de combater um fogo florestal foram atacados.
    É certo que a altura não era a indicada para baixar a moral das tropas. Um erro crasso fazê-lo nessa altura. Mas agora pode-se falar.
    Pode-se dizer que o número de dias consecutivos com temperaturas altas foi anormal e que essa foi a causa-mãe das coisas.
    Pode-se dizer, a crer no que veio publicado nos jornais, que muitos dos fogos foram obra de mão doente ou criminosa, em muitos casos reincidente. É a velha questão entre liberdade e segurança. Não se pode na maior parte das vezes ter as duas.
    Pode-se dizer que muito do combate foi feito, abnegadamante é certo, por gente que pouco conhecia os locais onde se encontrava. Mas isso é uma inevitabilidade em circunstâncias semelhantes. O que é necessário, e já se viu de outras vezes que não existe, é um comando com todas as competências e conhecimentos.
    Se continuarmos a insistir só na tecla da limpeza das matas, que é importante, mas tem que ser bem feita, e em outras do género, vai arder tudo de novo, porque não se percebeu de facto nada do que aconteceu.
    E, por último, o fogo é também necessário. Não nos esqueçamos. É necessário e muitas vezes inevitável. Se cai sobre o arvoredo uma trovoada seca de dimensões tão grandes como aconteceu no dia 2 de Agosto, o que é que se pode fazer?
    E, nos sítios inacessíveis, escarpados, em alturas em que os aviões não podem lá chegar, não é a única coisa possível, o deixar arder?
    Vai acontecer muito pior um destes anos, essa é a única certeza.

    Imagem do IM



    O poder dos “alimentos”

    Há alguns anos, o paradigma da vítima dos elementos surgiu-me à frente na forma de uma velha mulher que gesticulava e invectivava o mar.
    Não que fosse esposa ou mãe de náufrago. Era o mar que lhe ameaçava a casa.
    Talvez que em outras épocas o espectáculo fosse o mesmo. Agora é fortemente amplificado e difundido.
    É assim frequente ver gente a insurgir-se contra a falta de medidas para travar a água, o vento e o fogo.
    Toda a vida o homem se arriscou face aos elementos. Construiu junto aos rios, ao mar, sob o risco de quebradas, debaixo de vulcões.
    E pagou por isso, um dia.
    Os exemplos são imemoriais.
    Já não serão agora os deuses que dão a ordem aos elementos, mas são os outros, sempre os outros, que não lhes fazem face.
    Há uma espécie de culpa que não pode morrer solteira se o mar avança, se o fogo estala, se o vento ruge.
    E o que é pior, leva-se a coisa a sério.
    Decidiu-se que o mar não há-de comer as costas, que o fogo não há-de queimar as árvores, que o vento não há-de destruir o que lhe aparece pela frente.
    Vejo sempre estas decisões com estranheza.
    Gostamos muito de nos imaginarmos senhores dos elementos. Mas é um ledo engano.



    Em Marte

    Uma das coisas que me vem à cabeça quando me deparo com as imagens de Marte, é a possibilidade futura, em alguma outra missão, de encontrar as máquinas abandonadas que por lá estão.
    Se a Opportunity pudesse transpôr os pouco menos de 2100 Km que a separam do Sojourner da Missão Pathfinder, e se estivesse equipada para tal, qual seria a relevância dos dados que enviaria sobre a degradação dos materiais naquelas condições ao fim de quase sete anos?
    Já a Mars 3 está um pouco mais longe do Spirit.
    Mas ainda saberemos.



    O dia de reflexão

    Às vezes lembro-me dos dias de reflexão.
    Essa instituição de origem para mim desconhecida e que se constitui em exutor da paranóia propagandística.
    É certo que a coisa por aqui já foi pior. Já não se mata e morre em guerras eleitorais. Por agora.
    Durante muitos anos, tive o privilégio de conseguir sucessões de dias desses.
    Sem o ruído das televisões, sem o cheiro dos jornais, sem os sinais horários da rádio.
    Sem que fosse obrigado a escutar as peripécias da última telenovela fosse ela real ou ficcionada.
    E a propaganda desnorteada de políticos e de comerciantes.
    Só atento aos sons que me interessavam. Rodas de carroça ao acordar, buzina de peixeiro a meio da manhã, roncos de autocarros pela tarde e os chocalhos variados de gado doméstico combinados com cantos tardios de galo ao sol-posto.
    Sinais vitais e pouco ruído.
    A falta que me fazem.