Ano XIV
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  • Heranças na paisagem




    Assaltos na estrada



    Os salteadores de estrada parece que ainda não acabaram.
    Mas houve um tempo em que tinham mais fama do que proveito.
    Hoje já nem isso. Ainda bem.
    A verdade é que ouvi muitas histórias mas nunca conheci ninguém que tivesse sido assaltado na estrada.
    Porém, certa vez, em noite de meados de Agosto, a caminho do sul e da praia, aconteceu.
    Ia eu já embalado no sono pelas luzes do tablier, quando os meus tios se agitaram nos bancos da frente: "O que é aquilo?"
    Aquilo eram uns carros parados à beira da estrada e pessoas cá fora.
    Fizeram-nos sinal de parar. Parámos.
    Não era acidente.
    "Parece que este amigo ia sendo assaltado." - disse um dos presentes.
    O VW tinha as duas rodas do lado direito furadas. Estava na berma e o condutor contava a história. Tinha passado por uma barreira feita com tábuas com pregos, tinha fugido aos meliantes e só parara ali.
    Os circunstantes eram quase todos caçadores em fim de jornada. Todos a abrir os porta-bagagens e a carregarem as armas. "Onde é que eles estão?"
    A mim, o que me fazia confusão era o estado do homem. Falava arrastadamente e dizia umas coisas sem grande sentido.
    Depois, ele seguia no mesmo sentido do que nós. E não tínhamos visto ninguém nem tábuas algumas no meio da estrada.
    Ainda por cima, os pneus não estavam rasgados, o que seria de supor se ele tivesse andado um bom bocado com eles furados.
    Mas ele insistia. Que era uma barragem de malfeitores, que estavam armados e que tinham feito fogo. O carro não tinha uma beliscadura, estava era cheio de pó e de ervas secas do lado direito, o lado dos furos.
    Um dos meus tios, pelo sim pelo não, confirmou se a arma estava a jeito. Os outros lá deram uma boleia ao homem para ir buscar ajuda, um reboque ou uma roda suplementar.
    Quando reiniciámos a viagem, a conversa era sobre quantos copos teria o homem bebido e quantos metros é que ele teria andado na berma até furar os pneus.
    Já o nosso companheiro de viagem, o único que viajava no mesmo sentido, num Fiat 600, de cada vez que o meu tio acelerava o 1500, começava a fazer sinais de luzes, para que ele não se afastasse muito. Naquele tempo, de Grândola para sul, mesmo de dia, era raro ver-se outro carro na estrada. O meu tio fez-lhe a vontade.



    O estranho mundo

    Momentos sem escrita possível




    Pessoal e intransmissível




    La Habana e outras histórias



    Apetecia-me agora invocar aqui outro blogue mas não o faço porque já é demasiado conhecido. O certo é foi mais um que me roubou um post aqui há uns tempos. Um post que mais uma vez não escrevi. Mas tinha a ver com horas.
    Ora é de horas e de dias que se trata. Talvez até de locais.
    Relembro aquela velha teima entre duas amigas sobre o local onde tinha ocorrido determinado acidente rodoviário. Uma afirmava que fora em Roma. Outra retorquia que fora no Crato.
    Ambas tinham razão.
    Que horas são as de um acontecimento? A que dia pertence?
    Em que dia entrou Fidel em Havana, há 45 anos atrás? É coisa fácil de apurar, não é matéria de opinião.
    Mas as referências vacilam entre duas datas: 8 e 9 de Janeiro. Os mais errados dizem que foi no Dia de Ano Novo.
    É provável, mas não o sei, que a diferença se deva à diferença horária entre a Europa e a grande antilha.
    Sem apurar a verdade - que horas eram e que dia era em Havana - porque a verdade pouco me interessa, digo que foi a 9.
    Isto porque se impõe recordar um dos posts que primeiro aqui coloquei:

    Fidel Castro había ganado la guerra a Fulgencio Baptista, entrando triunfalmente en La Habana, mientras se rompía el muro de contención de la presa de Vega de Tera, provocando la inundación del pueblo de Ribadelago.

    Michel Debré était nommé premier-ministre.

    Qual é a tradução para português destes dois parágrafos?


    E já agora, a Sopol.

    O que é que tudo isto significa? Se é que significa alguma coisa.

    As horas de um acontecimento deveriam ser as locais. E a que horas chegou esta última sonda a Marte? E em que dia?
    Há um velho livro de ficção científica que tem a resposta. Depois digo qual é.



    O homem voltou! (Os post roubados II)
    um post dedicado ao Anarcka



    Caramba! Voltou das férias e tem razão para estar magoado.
    Primeiro: foi ele que levantou a lebre e até, posso dizê-lo, em minha atenção. O mestre não tinha nada que o citar, sem sequer indicar a fonte.
    Segundo: peço desculpa por me não ter lembrado da data de 23. Mas o meu amigo também desapareceu...

    Espero que venha com força para continuar.



    Os posts roubados

    A minha opção por não comentar os últimos acontecimentos, que se baseia na maior parte das vezes no desinteresse que me suscitam, faz todavia com que às vezes me roubem posts.
    Não é que eu fosse comentar de imediato a notícia. Já há demasiada gente a fazê-lo e todos passam muito bem sem a minha opinião.
    Mas é que, às vezes, há na notícia esse lado fugitivo (fugidio?) que a pode arrastar no tempo como um cavalo arrasta o cavaleiro preso aos estribos.
    E é isso que me interessa. Não o diz que disse de porta de café.
    Dito isto e perdoem-me mais uma vez a bizarria, roubam-me posts.
    Nos últimos tempos tem sido por demais.
    É na televisão, vem este e aquele e trás, lá está o ponto.
    É em algum jornal ou revista, num mais recatado artigo, lá está.
    Também em alguns outros blogues, já verifiquei que tem sucedido.
    Ora porra, assim não dá.
    Está o homem a começar a teclar e já o copiaram. Nem sequer tem ainda as ideias ordenadas em frases e as ilustrações alusivas, e já estão a bater no ponto. Não pode ser.
    Se continuarmos assim, não me resta senão fazer como certo entrevistado que certo dia ouvi:
    "Faço deles as minhas palavras."
    Outros dirão: É falta de imaginação!



    É tinto ou branco?



    Um destes acasos fez com que tivesse ficado pregado a um documentário (julgo que francês) sobre o cheiro.
    Passou esta madrugada na SIC Notícias sem a indicação final da proveniência.
    Já aqui há uns tempos tinha aqui mencionado o museu dos odores. O cheiro a escola, a terra molhada, etc.
    A verdade é que, apesar de tudo, sabe-se ainda pouco sobre os mecanismos sensoriais e particularmente sobre o tacto, o olfacto e o paladar.
    Eu sou um ignorante profundo destas matérias mas como qualquer outra pessoa gosto de apreciar as questões que se apresentam.
    É provável que o documentário em questão ainda passe a outras horas, não faço ideia.
    Mas o que ele releva é interessante.
    Toda a irracionalidade do comportamento humano (se por hipótese, considerarmos que o racionalismo é uma redução a zeros e a uns, é extraordinário que os mesmos zeros e uns nos permitam comunicar desta forma, colocar máquinas em Marte e que, ao mesmo tempo, estejamos tão longe de entender os nossos próprios mecanismos de leitura) aqui mostrada é um magnífico exemplo para outras considerações sobre a nossa forma de caracterizar as coisas.
    O documentário abre e fecha com alguém que perdeu traumaticamante o olfacto. Há uma nota estranha no meio das imagens, vê-se outrem (talvez uma médica) a observar o interior da cavidade nasal do indivíduo. Como se a explicação estivesse ali, à vista desarmada. Talvez não passe de uma imagem documental absurda, à semelhança do aperto de mão para a fotografia ou do voto que fica pendurado dois minutos da ponta dos dedos.
    O indíviduo em questão traça o quadro da sua incapacidade. Algo a que estamos habituados com os cegos e com os surdos, mas não com os que não têm cheiro.
    Nem sequer há um designação vulgar para essa incapacidade.
    Depois há uma série de observações mais ou menos apaixonadas sobre os aromas. Dados sobre a importância do cheiro na sobrevivência (todo o nosso organismo trabalha para sobreviver e para se reproduzir, digo eu), nas memórias, etc.
    Há também o lado obscuro e humano dos extremos. Uma cidade canadiana (Halifax) onde parece começar a haver uma estranha luta contra o cheiro.
    Sinais de "No scent" e outras particularidades que eu suponho já terão outros locais de acolhimento.
    Depois, casos de pessoas que não suportam cheiros (como o mundo está trocado, o homem do traumatismo decerto acolheria de bom grado uma troca) chegando ao ponto de tentarem eliminar das suas casas as partículas que transportam da rua! Como se o cheiro só existisse lá fora, fosse coisa alheia, como se os seus aparelhos de televisão, as suas roupas, os seus alimentos não tivessem cheiro...
    Há dúvidas se são ou não doentes psiquiátricos.
    Depois o habitual da publicidade, a atracção dos cheiros. Sem nunca se saber se funciona ou não e como é que funciona. As habituais pérolas de que este perfume é para "uma jovem mulher, com alguma beleza, com dois filhos e um emprego, dinâmica..."
    Todos os discursos ocos deste mundo. Quando se fala para comentar o que não é comentável.
    E finalmente... Não foi no final, foi lá para o meio, uma prova de vinhos: cheira a palha e a limão, se fôr branco. Cheira a framboesas, a madeira, se fôr tinto.
    Acontece que o tinto (parecia mais palhete) era branco colorido. Supostamente colorido com algo inodoro!!! Haverá algo que o seja completamente?
    O certo é que os supostos escanções de imediato associaram a côr ao aroma.
    É branco ou tinto?
    Cheio!

    a imagem supra saiu de um ficheiro do qual já não sei a origem - as minhas desculpas



    Gasolim por outras vias





    Gasolim e a história da cidade





    The trusty guy

    Peço encarecidamente aos meus leitores que me esclareçam:
    Também vós tendes sido premiados com avultadas somas nessa estranha moeda que dá pelo nome de USD only?
    Por favor, dizei-me se sim ou se não.
    Começo a pensar-me no centro do mundo, pois já conto com a módica quantia de 20,660,000 USD only (usando a notação de origem).
    Hoje, porém, já abusando da minha sempre afável solicitude, pedem-me a colaboração a troco de nada.
    Sabem-me assim já disponível para ajudar só porque sim.
    Informai-me: o mal é geral ou tenho mesmo e-mail de labrego? É que já são nove as graças recebidas.
    Eu sei que o dólar está a descer mas segundo os especialistas ainda não chegou aos 400% de desvalorização, tal como certas fontes disseram do peso argentino! Se fosse assim, eu percebia.



    Enquanto Carlos
    (para se perceber bem quando é que fui Carlos é melhor ler isto)

    Enquanto Carlos fazia a minha vidinha balnear ao som de um bar de praia, de vez em quando perturbado pelo apito dum beep emprestado pelo velho amigo R.C.. Era o tempo dessas geringonças.
    Mas não andava muito preocupado com as comunicações, estava de férias.
    Certo dia, uma mensagem:
    GANA BOA 6 FEIRA 21:00

    Gana boa?
    Que raio será isto?
    Cheira-me a mensagem do R.C.. Mas Gana boa?
    Se é dele, é para o petisco. Sexta-feira, 9 da noite, bate choco.
    Lá fui eu para a praça de táxis perguntar por um restaurante ou tasca chamado Gana Boa, Gamba boa ou Gamboa, tudo o que me pareceu.
    Nada. Não sabiam de nenhum.
    Nem eu, que conhecia mais ou menos bem a zona.
    Fazer o quê?
    Não valia a pena preocupar-me. O que fosse, soaria.
    Na sexta-feira, um pouco antes das 9 da noite, parei o automóvel na praça principal da vila, em local conspícuo, e lá fui para a taberna do costume. Esperei.
    Às 9 e 20, e como nada tivesse acontecido, lá pedi o jantar ao meu intermediário no negócio do alojamento, que já estava farto de me ver ocupar a mesa só para beber cerveja.
    Quando chegou o peixe, tocou o beep:
    ESTA QUASE

    Passou o tempo e nada.
    Terminei o jantar pouco antes das dez.
    Saí para a rua e lembrei-me de levar o carro para a zona dos cafés, mais abaixo.
    Encontrei um lugar bem visível quase, quase em cima da hora certa.
    Estacionei e como estava a começar o noticiário na rádio, fiquei dentro do carro a ouvi-lo. Era o tempo da discussão sobre as últimas experiências nucleares francesas nos atóis da Polinésia e sobre o filme do ET de Roswell.
    E eis que passa por mim um árabe. Vestido a rigor, de fez na cabeça. Coisa estranha, nunca vi um árabe assim vestido aqui em Portugal. Só pode ser o R.C. e uma das suas entradas de leão.
    Saí do carro e interceptei-o.
    Começou a falar comigo em francês.
    Comecei a perguntar-lhe que história era aquela de Gana boa e ele só me falava em poulets.
    Perguntei-lhe se bebia um café e ele que je n'ai pas de escudos, seulement ça, e mostrava-me dirames marroquinos.
    Lá bebemos o café e só depois de irmos ao jipe dele, onde trocou de roupa e me mostrou um balde com uma galinha viva dentro, me contou a história, já em português.
    Que me tinha mandado uma mensagem a marcar hora dizendo "Gaja boa, 6ª feira, 21:00"
    Ah, gaja boa, porra, as voltas que eu dei à cabeça.
    E depois mandou outra que eu não recebi, dando a indicação do local onde se apresentou depois, vestido de árabe, com o balde com duas galinhas, as quais fingia vender.
    Toda a gente lhe achou graça, mas ninguém lhe comprou nenhuma.
    As moedas marroquinas eram para o troco.
    Ofereceu a que faltava a um casal de namorados.
    Bem, lá levei foi o homem a um petisco, que ele estava era com fome.
    Depois, levei-o lá a casa para deixar o saco e a galinha.
    É claro que a minha senhoria apareceu logo no quintal e assim se habilitou a ganhar o último prémio da noite.
    Só achou é que a galinha estava um bocadinho magra.
    Nada que não se resolvesse com ração.
    Depois lá partimos à caça, mais para sul. A ver das ganas boas.
    Uma semana depois, quando um dos meus primos passou por lá, veio a senhoria a correr dizer-lhe: "Já viu como é que está a galinha? Muito mais gorda."
    O meu primo: "?"
    Quando ela finalmente percebeu que não era o mesmo, disse:
    "Pois, desculpe lá, quem me deu a galinha foi o Carlos!"

    imagem obtida em www.smartbeep.com/.../motorola/ motorola_elite.htm (link perdido)



    As raparigas riam-se

    Às vezes, no meio de uma aula, as circunstâncias levavam a alterar o rumo da lição.
    Naquele dia, a propósito de perspectivas e de fotografias que os alunos tinham trazido, levantou-se um emocionado sururu com base numa foto mais antiga que mostrava umas senhoras em trajes à moda de uma década longínqua.
    Risadas - esta é a minha tia-avó. Gritinhos - esta é a minha mãe ao colo da minha avó.
    Quando o professor, depois de observar as fotografias, lhes perguntou se achavam que as roupas eram assim tão diferentes das actuais, não hesitaram, ainda entre risinhos, em dizer que sim:
    "Ò s'tôr, não diga que não são!"
    "E concordam que as coisas evoluíram muito desde esses anos?"
    "Evoluíram como?"
    "Se vocês acham essas roupas estranhas, é porque hoje as vossas são muito diferentes, certo? Não foi isso que disseram? Então houve uma evolução."
    Mais risinhos. Que sim. E falam das roupas dos artistas de um espectáculo de há anos, que passou há poucos dias na televisão.
    "E então, o que é que acham que vai acontecer quando as vossas netas virem as vossas fotografias?"
    "Nada!"
    "Nada? Não acham que elas se vão rir também das vossas roupas?"
    "Não. O que é que as nossas roupas têm de especial? Não andamos com vestidos de alta costura! Ai delas que se riam!"
    "Pois não. E essas roupas da fotografia, eram assim tão especiais?"
    "Ò s'tôr, então não são? Não diga que não são engraçadas!"
    "Tão engraçadas como as vossas serão daqui a quarenta ou cinquenta anos."
    A argumentação aqueceu. Mas quando a aula acabou, ouvia-os falar a caminho da porta: "Achas que sim? Achas que se vão rir das nossas roupas?"



    Gasolim e as encruzilhadas

    versão alargada de post velhinho




    O fotógrafo não estava lá



    imagens de http://marsrovers.jpl.nasa.gov/gallery/all/spirit.html



    Mea culpa

    Depois de ter visto algumas imagens na televisão e lido alguns jornais espanhóis, fico convencido de que ontem se verificou algo mais do que o cíclico espectáculo dos meteoros. Parece que, no meio das Quadrantíadas, umas pedras maiorzinhas entraram a atmosfera. E foram anormalmente visíveis.
    Sendo certo que a previsão de visibilidade destes fenómenos envolve uma diversidade de elementos, uns mais fáceis de avaliar como a nebulosidade, outros menos, como as características do corpo e o seu comportamento ao atrito atmosférico, o facto é que estão determinadas as zonas do trânsito da Terra em que há maior probabililidade de ocorrência destes fenómenos.
    Sabia-se que ontem era um desses dias.
    Também se sabe que, de vez em quando, caem umas maiores.
    Da minha janela, há muitos anos que uma depressão de terreno de forma circular me interroga: serei eu uma pequena cratera formada por um meteorito ou uma depressão causada por abatimento natural do terreno?
    Respondo-lhe quase sempre que deve ser a primeira hipótese.




    O tempo dos monos



    Os monos de que falo são aqueles restos de colecção que ninguém quer.
    Podem ser gravatas, laços, jarras, garrafas, ursinhos de louça, alguidares de plástico, livros, qualquer pechisbeque.
    Talvez eu esteja enganado, mas fico com a sensação de que se operou uma mudança profunda desde o célebre trauma da velha retrosaria.
    Eu confesso que sou um tanto ou quanto nefelibata e que as coisas por vezes passam por mim sem que eu lhes preste a devida atenção. E até quando despertam em mim alguma curiosidade, desleixo-me e por vezes perco boas oportunidades.
    Foi o que sucedeu com a velha retrosaria de uma terra vizinha.
    Certo dia, reparei que na montra havia um conjunto de monos interessantes: gravatas estreitas, ao meu gosto, laços, um mundo de pequenos adereços masculinos que ninguém queria.
    Os preços eram escandalosamente baixos. Era aquela promoção ou liquidação final, mais propriamente.
    Marquei a loja com um X, na mira de lá entrar e arrematar discretamente aquele espólio.
    A verdade é que também não sou muito de andar por aí a comprar peças de vestuário. É mais quando é preciso.
    Assim, a minha inacção, é amanhã, é para a semana, revelou-se desastrosa.
    Um dia passo para nova verificação e já estava tudo estragado.
    A loja mantinha-se igual, mas não posso garantir que não tenha mudado de proprietário.
    Os objectos na montra eram mais ou menos os mesmos.
    Só que os preços tinham sido multiplicados por 20 e por 30, até 40.
    Alguém decidira que a partir de certa altura, os monos já não eram monos, eram raridades.
    Temo que todos os monos interessantes se estejam a converter em raridades e a ficar fora do meu alcance orçamental. Quem manda viver nas nuvens?



    A ignorância meteórica



    Parece-me que hoje estou votado às actualidades.
    Logo eu, que tão pouco gosto de comentar as últimas horas.
    Mas esta ignorância abissal de jornalistas e comentadores, embora não seja nova, dá-me sempre volta ao estômago.
    Ou eles se fazem de parvos em nome do espectáculo, da sensação, ou então não sei...
    De vez em quando apregoam chuvas de meteoros como se fossem coisas verdadeiramente únicas. Muitas vezes quando as previsões atmosféricas já deixam antever péssimas condições de visibilidade.
    Hoje, quando toda a gente sabia que as condições pareciam ser boas para tais avistamentos, fazem parangonas das bolas de fogo no céu. Dizem até que em Portugal já se sabe que são meteoros, mas em Espanha ainda não há explicação oficial!
    Há depois um senhor que diz que foi agora informado que se trata das Quadrantidas ou Quadrantíadas e que sim, que estava previsto, segundo lhe disseram.
    Não há limite para a ignorância. Mas não era suposto que quem nos informa, nos informasse mesmo?

    imagem em



    Vamos a votos

    Já muitos outros se devem ter lembrado disto, não é nada de novo.
    Mas que era um boa maneira de matar dois coelhos de uma cajadada, não há a menor dúvida.
    Isto porque, apesar de não ser um amante apaixonado do mundo do pontapé na bola, hoje estou tocado pelo espírito daquela cidade britânica, como é que se chama? Derby, acho eu.
    Já aqui fiz referência à minha côr clubística. Não é nada de muito importante ou talvez seja.
    Mas voltando à vaca fria, dizia eu que há uma boa forma de esclarecer de vez, pelo menos por quatro anos, aquela dúvida que paira sobre todos nós:
    "Haverá seis milhões de benfiquistas?"
    Eu confesso que não sei. Nem sei como é que é possível saber sem irmos a votos.
    As amostras não chegam. É preciso ir mais fundo.
    Eu próprio nunca cheguei a saber muito da côr clubística da minha família. Às vezes, por um acaso descobre-se qualquer coisa. O espanto que foi para mim perceber que o meu avô materno tinha simpatias sportinguistas, que a minha avó era vagamente benfiquista, que a minha mãe gosta que o Sporting ganhe.
    Saber ainda que um dos meus tios desligou certa vez a televisão quando o Manuel Bento sofreu o quarto golo. Nunca me tinha passado pela cabeça, confesso.
    Quanto ao meu pai, nunca dei por nada. Fico hoje com a impressão, ligando isto e aquilo, que poderia ser benfiquista. Não sei.
    Ora tudo isto releva, digo eu.
    Como é que o cidadão comum sabe quantos torcedores tem o seu clube? Não sabe. Usa daquela magnífica manobra intelectual que é pensar de acordo com a vontade (já que hoje é dia de Derby, wishful thinking).
    Por isso, é da mais elementar utilidade fazer uso da máquina eleitoral para apurar o verdadeiro sentimento do povo.
    Reparem que o voto flutuante é quase nulo (não se diz que se troca de mulher, de religião e de partido mas nunca de clube?).
    O voto útil já constitui um problema. Tende a eliminar os clubes de menor dimensão. Há inúmeros casos de simpatia pelo Oriental e pelo Belenenses, e é certo que sairão prejudicados todos os clubes que figuram em segunda e terceira prioridades. Mas isso é o que acontece também com os pequenos partidos. Poderíamos eventualmente considerar desde já uma revisão da lei eleitoral.
    Mas o importante é conseguir chegar a um resultado eleitoral expressivo. Conhecer as verdadeiras preferências dos portugueses (porque não dos brasileiros? - mas aí eu não posso nem devo interferir).
    Ao mesmo tempo, conseguia-se uma eliminação espectacular da abstenção. Integrar um referendo deste tipo numa eleição parlamentar seria um autêntico ovo de Colombo (ou Cavalo de Tróia?).
    Por último, já repararam que nem sequer seria preciso fazer uma campanha eleitoral?

    Não é por nada, mas




    Gasolim em estradas inexistentes




    Marte à vista



    Se não me engano, recitava-se a Aida no Estádio de Honra, na vertente do Jamor, ao tempo em que a curiosidade apertava para ver as imagens de Marte.
    É certo que já se tinham visto as fotografias da Viking, mais ou menos vinte anos atrás.
    Mas já na época da informação instantânea, a coisa era diversa. Muitos nem sequer cá estavam ainda na noite em que se esperou ver e se viu como era a Lua.
    Hoje, depois do ainda presumido falhanço da nave europeia, renasce a expectativa.
    Só não entendo esta catadupa de comentários, aparentemente feitos por especialistas, sobre a relação entre água e vida.
    Água e vida. Água e vida. Então não são capazes de imaginar formas de vida independentes da água? Tem toda a forma de vida que ser uma mistura de gato e de alface?
    Se não é assim, e se ela fôr detectável à nossa escala, é bem provável que não dêem por ela, se a encontrarem algures, em algum tempo.
    Fazem-me lembrar, mal comparado, aquele participante de um qualquer concurso Nem Sim Nem Não, que certa vez ouvi na rádio.
    Depois de ter resistido alguns segundos sem dizer as duas palavras proibidas, lá se espalhou.
    Quando o apresentador lhe perguntou: “Então, amigo, como é que foi isso?”, respondeu: “É que eu estava tão concentrado em não as dizer, que me distraí!”

    imagem da página da NASA



    O homem da casa




    O herdeiro natural



    Já me tinha apercebido de que as minhas cartas à Junta de Freguesia tinham pouco acolhimento.
    Mesmo que fosse a anunciar a criação de uma página sobre a vila, oferecendo os préstimos a troco de nada.
    É que há sempre a hipótese de eu estar a trabalhar para ter direito a uma placa com o meu nome numa esquina disponível.
    Depois, pus-me a pensar. Não pode ser só isso. Não serei eu o herdeiro natural da cadeira de presidente dos fregueses?
    Isto de carregar dois apelidos que se revezaram na referida cadeira durante décadas dos séculos XIX e XX, não terá como consequência óbvia a minha entronização no meio de foguetório e arruada?
    Se calhar, tem.
    Qualquer passo meu em direcção à porta da junta, mesmo que seja só por carta, deve ser visto como mais um marco na minha caminhada triunfal.
    Pois é, está explicado. Já sei que nunca vou obter resposta às minhas missivas.
    Aqui para nós, uma vez tive. Há uns bons anos, pedi para consultar uns canhanhos.
    Puseram-me à disposição a secretária do presidente.
    O que é que acham? Candidato-me ou não?
    Um dia falarei das movimentações que estiveram por detrás de uma minha suposta candidatura (imaginem!) à Câmara Municipal!
    Amigos do Brasil, há quem me diga que eu ando a ver muitas novelas.