Ano XIV
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  • Trote-galope

    Deve ter havido centauros.
    Se não, como é que se explica que desde tenra idade, as criancinhas quando solicitadas a imitar um cavaleiro, não façam o gesto de se apoiarem nos estribos e arquearem as pernas mas sim o de marcarem passo, de fémur bem articulado com respectiva tíbia e perónio?

    Bem sei que este tema já deve ter sido abordado e até escalpelizado anteriormente. Mas a minha mais do que proverbial ignorância leva-me a cometer estas audácias de pretensão. Julgo que me desculparão, uma vez que é da mais gritante utilidade este tipo de reflexão.

    Como concluiriam muitos dos actuais fazedores de opinião (o que eu gosto deste conceito!): se houve centauros, então é certo que houve sereias.
    Ora tendo havido sereias ou sirenes, muita coisa afinal se explica.

    Mas deixarei isso para depois, por ora encontro-me em vias de me reunir com um amigo cretense que tem alguns elementos sobre o Minotauro com os quais conto para desenvolver novas e labirínticas teorias sobre a evolução.



    imagem encontrada aqui




    Gasolim e os restos do Paraíso





    Cavalos, auto-estradas e salvaguardas



    A primeira vez que circulei em auto-estrada com o meu 2 cavalos, fui aparentemente escoltado com toda a cortesia.
    Sim, saiu-me à frente um cavalo bem tratado embora sem arreios e sem cavaleiro.
    Não terá dito o mesmo o condutor da Ford Transit que vi, pelo retrovisor, fazer meio-peão umas centenas de metros lá para trás.
    Quando uns quilómetros à frente, avisei a portageira do tractor animal passeando-se a galope, esta não se surpreendeu, já estava avisada por outros condutores.
    Não cheguei a saber o que aconteceu depois.

    Uma das características mais bem vincadas do funcionário público é o espírito de salvaguarda.
    Não se toma uma decisão sem que se esteja bem estribado e salvaguardado, ou por ordem emanada pelo chefe, ou por um papelinho qualquer que prevê a situação e recomenda a solução. Não se inventa nada.
    A salvaguarda é tema de conversas em qualquer restaurante de esquina perto da repartição: "Olha lá, salvaguarda-te. Olha que isso pode dar confusão!"

    Suponho assim que a referida portageira, embora não sendo uma funcionária pública, se salvaguardou, comunicando de imediato à chefia o ocorrido, alijando assim quaisquer responsabilidades indirectas em eventuais acidentes.

    O que bate certo com os factos posteriores.
    Sucede que, há uns dois ou três anos atrás, começaram a surgir em certos troços de auto-estrada os estranhos sinais hoje designados A19b, que antigamente surgiam sob o título de CAÇA GROSSA.
    Da primeira vez que tal vi, incrédulo, preparei-me logo para enfrentar meia-dúzia de renas fugidas ao Pai Natal, uma peara brava de algum velho conhecido ou até a componente equídea da fanfarra da GNR, mas não aconteceu nada.
    Depois caí em mim, não, não pode ser, vais numa auto-estrada, pagaste o serviço, não é suposto existir uma travessia de caça grossa, animais selvagens ou domésticos.
    Foi então que me lembrei da portageira!
    Afinal ela salvaguardou-se.
    Doravante, qualquer hipopótamo que surja sobre o viaduto da ribeira da Marateca e cause algum acidente, verá a responsabilidade da dita atenuada pelo facto da sinalização respectiva se encontrar perfeitamente visível, ainda que uns bons 30 Km atrás.
    Ainda que o referido hipopótamo veja mal.




    O cigano Melquíades

    Ou outro qualquer.
    Todos os dias nos aparece no pequeno écran.
    Vendendo velhas histórias como se fossem absolutas novidades.
    Ficámos hoje a saber que ler continuadamente faz dor de cabeça.
    ...
    Lembro-me de uma versão deste cigano a vender numa feira de Agosto dos idos de 74.
    Segurando numa mão uma daquelas colchas de que nunca descobri a origem, mas que vagamente lembravam as Mil e Uma Noites, com os seus camelos, minaretes e árabes a preceito, gritava para os circunstantes:
    “E aqui temos o Quartel do Carmo e o Capitão Maia à frente das suas tropas!”
    Só custava um conto de réis e ainda ganhava um faqueiro e duas almofadas, é claro!



    adaptado da pintura de http://www.labrache.com/jean-louis.htm



    Tijolos na paisagem empedrada





    A propósito de erros de ortografia e de orçamento de Estado

    QUÓRUM

    É o que se lê no écran do sistema de controlo de presenças e votações do parlamento de Portugal.
    É certo que eu sou um ignorante e por isso mesmo gostava de saber à luz de que acordo ortográfico é que esta grafia se justifica.



    Meus caros

    Como prometi, era aos brindes que viria explicar o post (a posta) anterior.
    Sucede que me encontrais indignado com a garrafeira.
    Ao contrário do que acontece com os meus bons amigos do Porto, que apesar da fama laborenta de que gozam, persistem no hábito das grandes almoçaradas regadas à medida (sei que são eles próprios que escolhem a garrafeira do recanto que os restaura), estou frente a um dilema assaz desagradável: ou escocês ou irlandês.
    Logo eu, que sou mais adepto do napoleónico postre (não tem que ser Napoléon, basta que seja bom)...
    Bem, encaro com a garrafeira do cisma (explico mais tarde) e verifico que não há nem uma medronheira de alambique não certificado, nem um Cognac, nem um Armagnac, nem sequer uma aguardente daquela que os meus amigos não tiveram outro remédio senão produzir, dado o excesso de uva lá na cooperativa, mas só coisas escocesas e irlandesas.
    Há ainda umas coisas sul e centro-americanas que até não desdenho, mas só em outras ocasiões, não quando estou prestes a iniciar uma tarde produtiva.
    Fica assim lavrado o meu protesto. Comunico que me rendi a uma bandeira verde-branca-laranja e que deixei em paz a cruz de Santo André.
    Mais informo que não é meu hábito submeter-me às chamadas de Baco, como de resto podereis comprovar pelo histórico da coisa.
    Adiante.
    Quanto à posta anterior, o seguinte:
    Como já disse jadis (perdoai-me a veia galicista), os sonhos são ignorantes e cheios de topete.
    Ora, aqui a atrasado, tive um sonho que saiu um pouco da linha bizarra que me é peculiar, pois aludia a uma corrida de fórmula um em que participava este vosso criado conjuntamente com alguns corredores em voga nos anos oitenta do século pretérito.
    A grelha de partida encontrava-se situada numa estrada nacional que esventra um dos terrenos de que é proprietária a minha progenitora e muito embora eu me encontrasse ao volante do finado Ford Escort, cedo me abeirei dos principais concorrentes à vitória final, mercê de uma série espectacular de ultrapassagens em terreno conhecido.
    Onde não vislumbro correlação é no facto de, após o acidente ocorrido no entroncamento, nos encontrarmos todos, pilotos e demais comitiva, a almoçar num local perfeitamente identificável para mim, sob a direcção irrepreensível de minha bisavó que Deus guarde.
    O staff era constituído pelas criadas lá de casa e a ementa que me apresentaram, entre os encontrões de um bi-campeão mundial da modalidade e de um eterno candidato era, mais ou menos, a constante da figura abaixo.
    Só uma coisa me confunde: de onde vieram os erros de ortografia?



    Horas de almoço



    depois do dito, ou melhor, aos brindes explicarei tudo



    Um dia em cheio

    E de repente, uma resma de postas atafulha-me a cabeça.
    Talvez inspiradas no debate do Orçamento de Estado a que estive a assistir.
    A primeira nota é sobre a endognose parlamentar.
    O que é que eu quero dizer com isto?
    Quero dizer que há notoriamente no excesso de palavras e nas redundâncias de raciocínio um apelo à compreensão dos pares.
    É necessário fazer uso intensivo de considerações e tergiversar sobre o essencial, porque se assim não fôr, há uma tradição que é quebrada e nasce a terrível dúvida sobre a eficácia do discurso.
    Tal como aqui.
    Aqui digo todos os dias coisas desnecessárias.
    Se as não disser, fico com dúvidas sobre a razão de ter um assento nesta secretária que herdei dos meus antepassados.
    A única diferença é que é suposto o meu discurso ser inconsequente.




    Efeméride

    32 anos depois, ainda aqui ando. Dessa safei-me.



    A assinatura



    Tirou cuidadosamente da pasta de couro uma outra pasta de cartão.
    Pousou-a calmamente sobre o balcão do notário.
    Com os dedos finos e enrugados pelos anos, pegou na folha branca e virou-a, como se tivesse cima e baixo.
    A empregada fitava-o com espanto: “O senhor, era para quê?”
    “Bom dia, minha senhora, quero que reconheça a minha assinatura feita na sua presença.”
    “Mas o senhor tem uma folha em branco...”
    “Precisamente! Pois se ainda não assinei...”
    “E que documento é este que consta de uma folha em branco?”
    “Não é um documento por enquanto. Quero apenas que reconheça a minha assinatura feita nesta folha, na sua presença.”
    “Mas isso é uma folha em branco... não posso reconhecer uma folha em branco!”
    “Não estará em branco quando eu a assinar, minha senhora. Terá aposta a minha assinatura e será a minha assinatura e apenas a minha assinatura que a senhora deverá reconhecer.”
    “O senhor não está a perceber, não posso reconhecer a sua assinatura numa folha em branco!”
    “E porque não, minha senhora?”

    O resto da história fica a vosso cargo.



    Confissão



    Este é um blogue incógnito.
    Não tão incógnito que não haja leitores. Mas é incógnito.
    Sei de um que é absolutamente incógnito, desde que lá coloquei o contador, nem umazinha visita.
    Ora bem, é justamente para falar de um e de outro que serve esta posta.
    O blogue incógnito, este, é feito às escondidas de toda a gente.
    Por isso, não há aqui amigos a espiolhar ou outros interessados (nos negócios) e interessadas (no conhaque) a analizar os deslizes. Não há e é difícil que venha a haver. Mesmo com os motores de busca, a coisa não vai lá. Apesar dos sinais mais ou menos óbvios da minha identidade que por aí já ficaram, continuo a achar que é procurar uma agulha num palheiro.
    Donde, os únicos conhecedores da coisa são os novos amigos virtuais. Excepção para...
    A minha Mãe.
    Claro, isso das mães saberem tudo a nosso respeito não é um mito. Descobriu logo.
    E mais, exigiu o seu próprio blogue. Ora aí é que está a questão.
    O tal blogue incógnito, o outro, de que só eu também sei, ainda não teve lá ninguém a espreitar.
    Não, não vou dar aqui o endereço. É incógnito, pronto. Nunca se sabe o dia em que ela lá se lembrará de revelar ao mundo as minhas esquisitices.

    Correcção a tempo: sabem ainda deste blogue e sabem quem eu sou mais duas pessoas - o rapaz citado na história abaixo e um professor de estatística de uma universidade grega. Nem um nem outro têm o hábito de aqui vir, um porque não se interessa, outro porque o seu português não chega a tanto.



    Alegadamente

    Os alegados agentes da autoridade interceptaram H G U ao volante do seu espada com doze anos.
    Como o alegado condutor seguia a 38 Km/h na A 77 entre Vilarinho do Poço e a Póvoa de Cace de Baixo, foi presente a tribunal sete dias depois.
    O juiz sentenciou uma medida de coacção de quinhentos mil réis a pagar alegadamente em estampilhas fiscais.

    Esta notícia não saiu em lado nenhum, mas disparates destes dizem-se todos os dias. O último (ou o primeiro) ouvi-o há minutos.

    Quem terá herdado o caderninho do meu tio?



    Contributo para manter a fachada



    esta imagem é propriedade de H Gasolim Ultramarino,
    à semelhança de todas as outras sem indicação em contrário.



    Gasolim à espreita




    Twilight zone



    A estrada é agreste.
    Há ainda algum caminho para fazer até ao destino, é talvez altura de parar e comer qualquer coisa.
    O sítio é imponente, pedregoso, de vistas largas a bombordo.
    Começam as casas da aldeia, um entroncamento à direita leva-nos para o maciço central.
    Uma taberna quase na esquina, pode ser ali.
    Procuro um lugar para estacionar e nenhum sítio me agrada, não há recantos e a estrada é estreita.
    Continuo até à saida da povoação, faço meia-volta e quando dobro a esquina da taberna, avisto quase em frente um parque de estacionamento de uma daquelas coisas beira de estrada anos oitenta.
    É para ali.
    A companheira do lado diz-me, rindo: "Aqui?"
    "Pois, então não é um restaurante?" - agora era sou eu que me rio da escolha.
    Vamos lá ver.
    O rapaz, no banco de trás, agita-se e dá um berro: "Um Diablo!!!"
    É um quadro estranho, um Diablo aqui nestes confins, onde pouco mais há do que pedras...
    Saímos. Ele logo para ver o carro.
    A primeira porta é do restaurante. Tem ementa e está fechada.
    Espreitamos para dentro e vimos gente. Tentamos outra porta, escondida por uns arbustos.
    Entramos.
    Depois de uma porta estilo faroeste, uma sala à média luz, com uma uma parede branca de projecção onde passa uma daquelas sequências de acidentes de competição automobilística.
    No tecto, uma bola de espelhos.
    Duas paredes pintadas com temas sobre azul forte.
    Em frente, uma espécie de snack-bar, mais iluminado.
    À esquerda a passagem para o restaurante, onde divisamos sentada a presumível cozinheira. Tudo isto envolto numa indescritível música de fundo uns decibéis acima do padrão.
    Pergunto ao homem atrás do balcão se se arranjam umas sandes.
    Ele diz que sim e pergunta se não nos queremos sentar.
    Vamos para o fundo da sala azul e sentamo-nos nuns pufes adstritos a umas mesas baixas e vermelhas.
    No balcão, quatro ou cinco homens pouco mais do que indiferentes à nossa chegada, começam a falar de qualquer coisa que tinha acontecido num baile.
    O tema não é pacífico, envolve qualquer ameaça de pancadaria passada ou futura.
    O pai deste, o cunhado daquele, o sobrinho do outro.
    Estamos naquela situação em que os augúrios são de tempestade em câmara lenta.
    Há conversa mansa mas de desafio.
    A bola de espelhos reflecte tonalidades de acidentes em ovais americanas.
    A companheira do lado ri-se quando eu a interrogo em silêncio se vamos ou não comer a outro lado.
    Twilight zone - diz ela.
    Ou Twin Peaks - acrescento.
    Estamos em sintonia a desfrutar o clima.
    Chegam as bifanas e a cerveja.
    Atrás de mim, ouço um ronco poderosíssimo e ambos olhamos para a parede que está mesmo nas nossas costas, tendo a certeza que vai entrar um Lamborghini através dela.
    O rapaz corre para a porta de vai-e-vem, passa para um compartimento onde mal se vê uma mesa de bilhar e debruça-se sobre o que parece uma balaustrada de madeira entre espelhos.
    Volta entusiasmado e diz: "É que a garagem fica aqui ao lado!"

    imagem encontrada aqui e tratada



    The milk van



    Um estranho viajante que despreza monumentos e aglomerações de turistas, abriu a sua matinal janela londrina e viu tudo o que precisava:
    A carrinha do leite a manobrar dois pisos abaixo.
    Não tinha máquina fotográfica nem precisou de ter.

    imagem montada a partir daqui e dali




    Boris e eu



    Falhámos a feira do Alvito.
    Eu não comprei queijos, ele não farejou todos os odores.
    Para o ano há mais feiras.





    O velho do muro

    Assim que viu o velho soube para onde ele ia.
    Demorou-se um pouco mais por cerimónia.
    Do largo, já o via sentado no muro.
    Encostou-se à sua direita e perguntou-lhe:
    Vieste buscar as palavras?
    Não. Não busco palavras. As palavras não me servem. As palavras de nada servem.
    As palavras usam-se.
    Usam-se, é certo. Mas de nada servem.
    Mas servem-nos!
    Servem para ser desperdiçadas. Não é um serviço útil.
    Não conheces a força das palavras?
    Não. Conheço a força. A força serve-nos e serve-se de nós. As palavras nem sequer se servem de alguém.
    Descrês?
    De quê?
    De tudo.
    Não sei. Para descrer, precisava saber. E não sei.





    As coisas mais estranhas eu vi

    Digam-me lá o que é que eu hei de pensar...
    O meu fiel (per)seguidor ou outros idênticos (porque foram dois, só no dia de hoje) ainda que menos familiarizados com a nossa língua, entram aqui, pedem a tradução e ganham isto:

    Therefore

    Había Fidel Castro ganado la war the Fulgencio Baptista, entering triunfalmente en La Habana, mientras if rompía el wall of contención of la imprisoned of Vega de Tera, provoking la inundación del pueblo of Ribadelago.
    Michel Debré eté nommé premier-gives.
    Which is the translation for Portuguese of these two paragraphs?

    To frighten the hunting

    Vine with it in the dawn.
    Of convoy.
    It brought the full head of intentions and the aturdido heart.
    The trip ran well.
    It adormeceu with the first alvores and leaned the head to its shoulder.
    "Beautiful" it thought.
    Soon to follow, he looked at for the window and he exclamou: "He looks at the Hairdo"
    She was sufficient it to wake up and to remove the head of its shoulder.
    E to pass the hands for the hair.


    entre muitas outras coisas.
    Farão o quê em seguida?

    (Old city in Algarve o what in followed?) - digo eu.



    Em dia de

    devoção e culto



    a escala das coisas



    BD



    Não é todos os dias que se casam duas personagens Disney.
    Muito mais raro é quando são nossos amigos.
    Desenhei um quadro alusivo à ocasião, em que não faltava a bola de chumbo na ponta da grilheta, em cuja superfície se reflectia a tradicional janela apesar da cena se passar ao ar livre (mistérios da BD). Junto da bola de chumbo, a também costumeira e erecta minhoca pensativa (sim, com um ponto de interrogação no respectivo balão).
    Para meu espanto, o quadro perdeu-se.
    Dizem que não sabem o que lhe aconteceu...
    Vocês acreditam?

    imagem montada a partir de
    http://www.museunostalgia.hpg.ig.com.br/revistalb-metralhas01.html
    http://www.ucdb.br/gibiteca/Margarida/




    Gasolim em ruínas